Ganhei este livro de minha professora do 5º ano, Dona Adélia: li-o de uma tacada só, e depois disso o reli várias vezes. A história dos três amigos escoteiros, Rubens, Jari e Carlos Afonso, que descem de barco o trecho paulista do rio Paraná, com muitas aventuras e perigos pelo caminho, era fascinante para um menino de 11 anos.
Hoje lembrei-me do livro e fui procurá-lo. Folheando-o, vi que hoje a maior parte dele seria condenada pelos ecologistas, pois os escoteiros caçavam tudo o que viam pela frente: capivara, perdiz, mutum, gavião, sucuris e até uma onça... Mas aqueles eram outros tempos, a região era quase selvagem e os bichos não corriam risco de extinção...
No entanto, já se podia sentir o início do que estava por vir, e o livro também trazia mensagens de amor e preocupação pela natureza. Reproduzo aqui um trecho que descreve o que os meninos viram perto de Presidente Epitácio:
"Do lado de São Paulo, a majestosa floresta havia recuado da margem por muitas centenas de metros, abatida pelos tiradores de madeira e lenhadores. As derrubadas eram enormes e acompanhavam o curso do rio, onde, para facilidade de embarque das toras e da lenha, havia uma sucessão de rampas; em algumas estavam atracadas as grandes barcaças, rebocadas por possantes motores a gasolina. Era uma desolação. A floresta virgem era levada para as fornalhas da E. F. Sorocabana e seria reduzida a cinzas. Não se via uma roça de milho, algodão ou plantações de café que de certo modo compensassem a devastação. De espaço a espaço, choupanas miseráveis de pau-a-pique, cobertas de folhas de coqueiro, parecendo abandonadas. Os seus moradores estavam no âmago da floresta, lançando por terra os gigantes centenários e regozijavam-se quando uma perobeira ou jequitibá de trinta ou quarenta metros de alto ruía fragorosamente, deixando uma clareira. Dentro de poucos, de muito poucos anos, desapareceriam a floresta e desapareceriam os veados, os porcos do mato, as antas, os macacos, os macucos, jacus, jacutingas, enfim, todos os seus habitantes terrestres e alados, tal como já aconteceu na maior parte do nosso querido São Paulo."
Esse livro foi escrito há mais de 50 anos. Confesso que não sei o que os autores de hoje escrevem para meninos pré-adolescentes. Preciso me atualizar, logo estarei comprando livros para meus netos. Espero encontrar ao menos alguns que lhes prendam tanto a atenção como este prendeu a minha...
