
Nunca fui muito de carnaval. Barulho, aglomeração, calor, suor, que graça tem isso?
Mas quando era criança o carnaval era diferente. Ou será que eu é que era?
Quase sempre passávamos o carnaval em Campinas, na casa de meus avós ou na de minha tia. Minha mãe fazia ela mesma nossas fantasias, de cetim, sempre caprichadas. Às vezes íamos ao baile infantil do D. Quixote, um pequeno clube do qual meu tio era diretor (acho). Mas geralmente nos divertíamos na rua mesmo, com nossos muitos primos, jogando confete e serpentinas uns nos outros. Sem contar o lança-perfume. Sim, era a coisa mais natural as crianças brincarem com lança-perfume, aquela lata dourada, marca Rodo Metálico. E era a mais inocente das brincadeiras, jogávamos uns nos outros para sentir o friozinho do éter se evaporando na pele, nunca vi ninguém sequer pensar em cheirar aquilo diretamente...
Mas o ponto alto do carnaval era o corso à noite. Da grande janela do quarto da frente da casa na então Rua Andrade Neves, assistíamos a passagem do grande desfile, carros conversíveis decorados, pessoas ricamente fantasiadas, carros alegóricos de agremiações as mais diversas... Um de meus favoritos, todos os anos, era o de um clube de caça ou coisa parecida, que vinha cheio de animais empalhados - imaginem se fosse nos dias de hoje...

Eu era muito pequeno, minhas memórias não são muitas nem detalhadas. Mas sei que o carnaval era inocente o bastante para que crianças pequenas se divertissem sem medos e sem traumas. Como era inocente tudo o mais.
O que é o carnaval hoje, afinal? Um evento de mídia? Só mais um feriado prolongado? Uma concentração de alegria desesperada de quem sabe que depois terá centenas de dias de Cinzas?
Ainda existem lugares em que as crianças brinquem de jogar confete e serpentina na rua? E o corso, onde passa hoje? E as marchinhas, quem as compõe, quem as canta?
Apesar de ter começado dizendo que não sou de carnaval, sinto saudade desses carnavais de minha infância. Ou será que é da própria infância?